Nem tudo que não foi por mal é inofensivo
- Fernanda Mendes
- 25 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Nem sempre uma pessoa que te faz mal teve a intenção consciente de ferir. E ainda assim, o corpo sente. O impacto existe independentemente da intenção, porque relação não se organiza só no plano das ideias, mas na experiência concreta de estar com alguém. Há pessoas que entram na tua vida sem clareza do que querem, sem revelar expectativas, sem sustentar presença, e mesmo assim passam a ocupar espaço. Não porque pediram, mas porque receberam uma autorização tua. Relações funcionam assim. Quem não delimita, concede. Quem não observa, permite. E quem não se escuta, paga o preço depois.
Somos seres projetados para o vínculo. Nosso sistema nervoso aprende a existir no contato, na troca, no espelhamento. A gente se importa antes mesmo de avaliar se é seguro, se é recíproco, se há maturidade emocional do outro lado. Muitas vezes se importa mais com o outro do que consigo. Aqui não estou falando de ingenuidade, mas condicionamento relacional. Só que existe um ponto crítico que quase ninguém quer olhar de frente... como sustentar cuidado por alguém que não está cuidando nem de si mesmo? Como investir presença onde não há responsabilidade interna? Como permanecer em um campo onde o outro vive em confusão e te convida, mesmo sem dizer, a se confundir junto?
Quem não se cuida transborda descuido. Quem não sustenta palavra desorganiza o vínculo. "Quem não sabe o que quer usa o outro como território de ensaio". Isso não é ataque, nem julgamento moral. É minha visão adulta da dinâmica relacional. Existe uma romantização perigosa do compreender tudo, do contextualizar tudo, do ser empático a qualquer custo. Em nome desse entendimento exagerado, a pessoa se abandona. O corpo vai tensionando, a intuição vai sendo silenciada, o cansaço emocional vira paisagem distante, quase que perdida num horizonte. Entender demais anestesia, e essa anestesia (geral) prolongada cobra juros altos.
Cuidar do outro sem cuidar de si não é amor, é desorganização emocional compartilhada. Há quem diga que não "fez por mal", que não pensou, que não imaginou que afetaria. Não pensar também é uma escolha. Não sustentar intenção também comunica. Não se responsabilizar também revela o nível de maturidade possível naquele vínculo.
Relação não se mede pelo discurso bonito, mas pela capacidade de sustentar presença, coerência e cuidado no tempo.
Existem perguntas incômodas, dessas que exigem coluna ereta e acolhimento para serem respondidas... Tu dá às pessoas o direito de não concordarem contigo, mas tu te dá o direito de não permanecer onde não há clareza, reciprocidade e respeito emocional?
Nem todo afastamento é rejeição. Muitas vezes é higiene básica. Às vezes é respeito próprio que chegou tarde, mas ainda chegou. Intenção importa, mas impacto importa mais. O corpo sempre sabe quando algo está desalinhado, mesmo quando a mente cria justificativas sofisticadas para permanecer. Relações saudáveis não são aquelas onde tudo é confortável, mas aquelas onde existe responsabilidade afetiva mínima, clareza suficiente e disponibilidade. O resto é ruído.
Cuidar de si não te torna frio, distante ou menos capaz de amar. Te torna menos disponível para se perder tentando sustentar alguém que não está nem se olhando.
Pense nisso!
Com amor,
Fernanda.




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