O direito de mudar e o direito de sentir
- Fernanda Mendes
- 23 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
A vida muda, as pessoas mudam, os planos também. E ainda assim, quando algo muda, algo em nós sente. Existe um equívoco comum no caminho espiritual que confunde consciência com anestesia emocional. Achar que sentir é apego, que doer é fracasso, que maturidade é não ser afetado. Mas isso é apenas mais uma forma do ego se esconder atrás da ideia de iluminação.
Sim, quem muda de ideia tem o direito de mudar. A alma aprende em movimento, o agora nunca é o mesmo. Mas quando uma escolha muda, ela não muda sozinha. Ela atravessa acordos, expectativas e corações que haviam encontrado algum chão naquele combinado. Por isso, quem é afetado pela mudança tem o direito de sentir.
Sentir não é resistência à vida. É a vida passando através do corpo. A frustração não é o problema. O problema é negar a frustração em nome de uma falsa paz. Quando algo é combinado, algo se ancora. Quando algo se desfaz, algo precisa ser desancorado, e isso leva tempo. O sofrimento não nasce porque o plano acabou, mas porque o coração ainda estava ali.
O convite não é endurecer, nem espiritualizar a dor para parecer evoluído. O convite é testemunhar. Testemunhar a tristeza sem se tornar ela, o desapontamento sem construir narrativas de abandono, permitir que o sentimento exista, respire, atravesse e siga. Amor consciente não exige que o outro fique, mas também não exige que você finja que não doeu.
Há sabedoria em reconhecer os próprios limites do coração. Às vezes, dizer não quero reorganizar não é punição, é cuidado. É um corpo dizendo que precisa de previsibilidade para continuar aberto. No caminho do amor, não se trata de segurar nem de empurrar, mas de honrar o que é, em você e no outro.
Podemos mudar de ideia sem negar o impacto. Podemos sentir sem nos perder no sentimento. E talvez seja isso o amor em prática: presença suficiente para mudar e compaixão suficiente para acolher aquilo que foi tocado.
com amor,
Fernanda.




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