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Digestão emocional não tem manual

Há experiências que a gente não mastiga, apenas engole. Palavras atravessadas, situações mal resolvidas, silêncios impostos para evitar conflitos ou para não perder vínculos. Vamos empurrando para dentro aquilo que incomoda, acreditando que o tempo vai dar conta, que o corpo aguenta, que depois a gente olha para isso. Mas o corpo não funciona assim. Ele sente antes, registra antes, reage antes. A garganta fecha, o estômago pesa, o intestino se altera, o sono se fragmenta. Não como punição, mas como linguagem. É o corpo tentando digerir aquilo que a mente não teve coragem, tempo ou espaço para elaborar.


Digestão emocional não é sobre controlar sentimentos nem sobre “pensar positivo”. É sobre presença e honestidade interna. É reconhecer que suportar não é sinônimo de saúde. Muitas vezes seguimos funcionando, sendo produtivas, disponíveis, fortes, enquanto acumulamos pequenos atravessamentos diários... expectativas não ditas, afetos pela metade, limites ultrapassados, culpas que não nos pertencem. Vamos engolindo tudo isso para manter a harmonia externa, mas o preço costuma ser um desequilíbrio interno silencioso e constante.


Desde cedo aprendemos a engolir. Engolir o medo de decepcionar, o medo de dizer não, o medo de dizer sim e não dar conta. Engolir relações onde é preciso se diminuir para caber. Engolir situações que não fazem sentido, mas que parecem inevitáveis. Aos poucos, vamos perdendo o contato com o próprio ritmo, com a própria fome, com o que de fato nos nutre. E quando essa desconexão se instala, o corpo passa a falar mais alto, porque ele não sabe fingir equilíbrio por muito tempo.


O que não é expresso se transforma em tensão. O que não é sentido se transforma em sintoma. O que não encontra espaço para existir procura uma saída. Sentir é inteligência corporal. Raiva não é descontrole, é um sinal claro de limite atravessado. Tristeza não é drama, é um pedido de pausa, de recolhimento, de reorganização interna. Emoções são bússolas, não inimigas. Ignorá-las não nos torna mais maduras, apenas mais desconectadas.


Em algum momento, o processo de cura começa a se desenhar. E ele raramente começa quando nos tornamos mais agradáveis, mais tolerantes ou mais resilientes. Ele começa quando paramos de nos violentar para manter vínculos. Quando aprendemos a mastigar a própria experiência antes de engolir. Quando nos permitimos sentir desconforto sem fugir dele. Quando surge a pergunta simples e radical que muda tudo: isso me nutre ou me adoece?


Cuidar da digestão emocional é um ato profundo de responsabilidade consigo. É escolher não se abandonar para continuar pertencendo. É construir relações onde o corpo pode relaxar, a respiração pode descer e a verdade pode existir sem medo. Porque aquilo que nutre sustenta, organiza e fortalece. E aquilo que engasga, mais cedo ou mais tarde, precisará ser visto, sentido e liberado.


Com amor,

Fernanda.

 
 
 

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