Quando o Guru é interno, como escolher professores sem criar pedestais
- Fernanda Mendes
- 29 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Vivemos em um tempo onde a vitrine fala mais alto que a substância. Onde a estética do discurso, o carisma calculado e a narrativa bem ensaiada parecem valer mais do que a postura interna de quem se dispõe a tocar o campo psíquico, energético e emocional de outra pessoa. As práticas terapêuticas, sejam elas corporais, energéticas, integrativas ou espirituais, exigem um compromisso que vai além da técnica: exigem ética, coerência e responsabilidade moral.
Antes de contratar um terapeuta, professor ou facilitador, é fundamental que cada pessoa desenvolva um sentido de discernimento. Não para desconfiar do mundo, mas para se preservar. Porque, quando abrimos o corpo e a alma para um trabalho terapêutico, abrimos também o nosso território mais sutil, e isso merece cuidado.
No entanto, o que temos visto é um fenômeno crescente, profissionais que falam de saúde integral enquanto vivem adoecidos; pessoas que vendem prosperidade sem conseguir pagar as próprias contas; discursos sobre clareza, autonomia e presença sustentados por práticas de persuasão e manipulação emocional. Tornou-se fácil parecer. Muito mais difícil ser.
A oratória, quando usada sem responsabilidade, se transforma em um palco. E nesse palco, muitos constroem personagens que não conseguem sustentar na vida real. Isso não é apenas incoerência: é risco. Porque a incoerência vibra, e quem é sensível sente. Quantas vezes alguém encontra um profissional pela internet, se encanta com a narrativa, agenda um atendimento… e ao ver a pessoa presencialmente, percebe que não existe chão naquele corpo? Que o gesto, o olhar e a presença não combinam com as palavras?
Não estamos falando de perfeição, ninguém é perfeito. Estamos falando de compromisso real. De quem faz o próprio caminho antes de querer guiar o caminho do outro. De quem sustenta internamente aquilo que oferece externamente.
Há um documentário muito emblemático sobre isso: Kumaré (2011), onde um homem decide fingir ser um guru espiritual para mostrar o quanto as pessoas projetam e acreditam mais na figura do “mestre” do que em si mesmas. A experiência vira um espelho desconfortável sobre a nossa tendência de terceirizar a verdade e buscar respostas em quem parece iluminado. E, ao final, quando ele revela que era tudo uma farsa, o impacto é profundo, não pela mentira em si, mas por revelar o quanto somos facilmente seduzidos por aparências, símbolos e discursos bem construídos.
Por isso, quando alguém busca uma prática terapêutica, proponho que observe alguns aspectos essenciais, os mesmos que eu aprendi a observar ao longo da minha própria jornada:
O que estou buscando de verdade, um guia ou alguém que confirme as minhas expectativas?
o que a pessoa vive combina com o que ela fala?
essa pessoa tem trajetória ou apenas estética?
há consistência no gesto, no corpo, na forma como ocupa o espaço?
eu me encanto pela presença dessa pessoa ou pelo personagem que ela apresenta?
o discurso soa bonito… mas o corpo dela sustenta o que ela fala?
eu me sinto segura(o) na presença dessa pessoa? O meu corpo relaxa ou contrai?
ela fala de autonomia ou tenta criar dependência?
a forma como ela lida com as próprias dificuldades é coerente com o que oferece?
quando olho para além do Instagram, o que sobra?
se eu tirasse os filtros, a estética e o marketing, eu ainda escolheria aprender com essa pessoa?
ela se responsabiliza pelos próprios processos ou espiritualiza os erros e terceiriza tudo para “o universo”?
ela me coloca em um lugar de poder ou me coloca em um pedestal ilusório que depois pode ruir?
essa pessoa fala de prosperidade, saúde e clareza… mas vive isso de maneira básica no cotidiano?
se toda a narrativa fosse removida, o que restaria?
meu sentir diz “sim”, ou eu quero dizer “sim” porque estou carente, fragilizada(o) ou impressionada(o)?
essa pessoa cria espaço para eu pensar por mim ou tenta me convencer de algo?
Para mim, o verdadeiro guru sempre esteve dentro de cada um de nós. E, justamente por isso, quando escolhemos um guia, um professor ou alguém para caminhar ao nosso (lado), o que é, sim, muito importante... é essencial checar, sentir e observar. A guiança que recebemos impacta diretamente a nossa presença, a forma como percebemos a vida e o modo como nos movemos no mundo.
Faça boas escolhas. Escolhas que te aproximem de você, e não do pedestal de quem te ensina. Esse é o ponto: não coloque ninguém, nenhum ser encarnado, acima de você.
Quem precisa estar no palco da sua vida é você. Sempre você.
Aqui vai um link para quem quiser assistir Kumaré, o documentário que mencionei.
Com Amor,
Fernanda.




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