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Quando o Guru é interno, como escolher professores sem criar pedestais


Vivemos em um tempo onde a vitrine fala mais alto que a substância. Onde a estética do discurso, o carisma calculado e a narrativa bem ensaiada parecem valer mais do que a postura interna de quem se dispõe a tocar o campo psíquico, energético e emocional de outra pessoa. As práticas terapêuticas, sejam elas corporais, energéticas, integrativas ou espirituais, exigem um compromisso que vai além da técnica: exigem ética, coerência e responsabilidade moral.


Antes de contratar um terapeuta, professor ou facilitador, é fundamental que cada pessoa desenvolva um sentido de discernimento. Não para desconfiar do mundo, mas para se preservar. Porque, quando abrimos o corpo e a alma para um trabalho terapêutico, abrimos também o nosso território mais sutil, e isso merece cuidado.


No entanto, o que temos visto é um fenômeno crescente, profissionais que falam de saúde integral enquanto vivem adoecidos; pessoas que vendem prosperidade sem conseguir pagar as próprias contas; discursos sobre clareza, autonomia e presença sustentados por práticas de persuasão e manipulação emocional. Tornou-se fácil parecer. Muito mais difícil ser.


A oratória, quando usada sem responsabilidade, se transforma em um palco. E nesse palco, muitos constroem personagens que não conseguem sustentar na vida real. Isso não é apenas incoerência: é risco. Porque a incoerência vibra, e quem é sensível sente. Quantas vezes alguém encontra um profissional pela internet, se encanta com a narrativa, agenda um atendimento… e ao ver a pessoa presencialmente, percebe que não existe chão naquele corpo? Que o gesto, o olhar e a presença não combinam com as palavras?


Não estamos falando de perfeição, ninguém é perfeito. Estamos falando de compromisso real. De quem faz o próprio caminho antes de querer guiar o caminho do outro. De quem sustenta internamente aquilo que oferece externamente.


Há um documentário muito emblemático sobre isso: Kumaré (2011), onde um homem decide fingir ser um guru espiritual para mostrar o quanto as pessoas projetam e acreditam mais na figura do “mestre” do que em si mesmas. A experiência vira um espelho desconfortável sobre a nossa tendência de terceirizar a verdade e buscar respostas em quem parece iluminado. E, ao final, quando ele revela que era tudo uma farsa, o impacto é profundo, não pela mentira em si, mas por revelar o quanto somos facilmente seduzidos por aparências, símbolos e discursos bem construídos.


Por isso, quando alguém busca uma prática terapêutica, proponho que observe alguns aspectos essenciais, os mesmos que eu aprendi a observar ao longo da minha própria jornada:


  • O que estou buscando de verdade, um guia ou alguém que confirme as minhas expectativas?

  • o que a pessoa vive combina com o que ela fala?

  • essa pessoa tem trajetória ou apenas estética?

  • há consistência no gesto, no corpo, na forma como ocupa o espaço?

  • eu me encanto pela presença dessa pessoa ou pelo personagem que ela apresenta?

  • o discurso soa bonito… mas o corpo dela sustenta o que ela fala?

  • eu me sinto segura(o) na presença dessa pessoa? O meu corpo relaxa ou contrai?

  • ela fala de autonomia ou tenta criar dependência?

  • a forma como ela lida com as próprias dificuldades é coerente com o que oferece?

  • quando olho para além do Instagram, o que sobra?

  • se eu tirasse os filtros, a estética e o marketing, eu ainda escolheria aprender com essa pessoa?

  • ela se responsabiliza pelos próprios processos ou espiritualiza os erros e terceiriza tudo para “o universo”?

  • ela me coloca em um lugar de poder ou me coloca em um pedestal ilusório que depois pode ruir?

  • essa pessoa fala de prosperidade, saúde e clareza… mas vive isso de maneira básica no cotidiano?

  • se toda a narrativa fosse removida, o que restaria?

  • meu sentir diz “sim”, ou eu quero dizer “sim” porque estou carente, fragilizada(o) ou impressionada(o)?

  • essa pessoa cria espaço para eu pensar por mim ou tenta me convencer de algo?


Para mim, o verdadeiro guru sempre esteve dentro de cada um de nós. E, justamente por isso, quando escolhemos um guia, um professor ou alguém para caminhar ao nosso (lado), o que é, sim, muito importante... é essencial checar, sentir e observar. A guiança que recebemos impacta diretamente a nossa presença, a forma como percebemos a vida e o modo como nos movemos no mundo.


Faça boas escolhas. Escolhas que te aproximem de você, e não do pedestal de quem te ensina. Esse é o ponto: não coloque ninguém, nenhum ser encarnado, acima de você.


Quem precisa estar no palco da sua vida é você. Sempre você.



Aqui vai um link para quem quiser assistir Kumaré, o documentário que mencionei.


Com Amor,

Fernanda.

 
 
 

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