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Um minuto de presença

Nossa vida é muita coisa ao mesmo tempo. Ela é intensa, cheia de possibilidades, e ainda assim, é curta. Curta demais para ser atravessada no automático, curta demais para ser desperdiçada em dias vazios de presença.


À noite, quando o dia se recolhe, existe uma pergunta que me acompanha "o que, hoje, realmente valeu a pena?" Às vezes, o silêncio vem como resposta. Quando isso acontece, não é o mundo que me faltou. Foi o respeito pelo meu próprio tempo que se perdeu.


Dizer estou sem tempo se tornou quase um reflexo. Mas como é possível não ter tempo quando o dia esteve inteiro ali, disponível. O tempo não desaparece... o que some, muitas vezes, é a nossa presença dentro dele.


Ontem, no centro de Floripa, eu vinha de uma reunião importante. Fui até uma clínica buscar exames de um check-up cardíaco. A mente ainda organizada em tarefas, o corpo em alerta, o céu carregado com aviso de chuvas fortes. Eu só queria cumprir o que faltava e voltar para casa. Quando já estava quase chegando, um rapaz me abordou com um cesto de paçoca e disse: moça, preciso de um minuto do teu tempo.

Minha resposta veio rápida, quase automática. Depois a gente conversa. Ele então respondeu, ainda sorrindo: "menos de um minuto então". Aquilo me parou. Como assim eu não tinha menos de um minuto. Não era um compromisso longo, era um convite à presença.


Quem vive em capital aprende a criar defesas. Passamos por muitas pessoas pedindo atenção, vendendo algo, solicitando ajuda. Criamos filtros para seguir andando. Ainda assim, ontem, passei por várias pessoas na mesma condição, e foi aquele pedido que me atravessou.


Talvez porque ele tenha revelado algo desconfortável pra mim. Quantas vezes dizemos que não temos tempo, mas entregamos horas às redes sociais, acompanhando rotinas de pessoas que não conhecemos, nos comparando, fuxicando vidas alheias, rindo de conteúdos que se disfarçam de humor, mas muitas vezes são apenas bullying normalizado. O tempo escorre ali sem que percebamos, quase sempre sem nos nutrir de verdade.


Quantas vezes justificamos a pressa, enquanto nos distraímos com o que não fortalece, não aprofunda, não constrói. O problema não está em dizer não. Limites são necessários e saudáveis. O problema é quando a pressa se torna um modo de viver e a ausência de presença vira hábito, afastando a gente de si mesmo e do que realmente importa.


Pra mim, o tempo não é apenas uma sequência de horas. Ele é matéria viva da nossa experiência. Cada dia carrega a possibilidade de sentido, mesmo nos dias comuns, mesmo nos dias difíceis.


O convite é íntimo, e pode mudar o jeito como atravessamos a vida. Antes de dormir, perguntara si mesmo: o que eu pude aprender hoje? Não espere respostas grandiosas, às vezes, ela chega como um incômodo, um limite percebido, um espelho inesperado no meio da rua.


Desperdiçar o tempo não é descansar, nem pausar, nem contemplar. Desperdiçar o tempo é ausentar-se de si mesmo.


Respeitar a própria vida começa por respeitar o próprio tempo. Dar sentido aos dias não é torná-los maiores, mas mais habitados. Porque quando o tempo é habitado, a vida, mesmo breve, se torna profunda.


Com amor,

Fernanda.

 
 
 

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