Aprender a permanecer
- Fernanda Mendes
- há 6 dias
- 3 min de leitura
Nada que importa de verdade acontece fora do processo.
A gente vive numa época obcecada por resultado, mas quase analfabeta de percurso. Quer chegar sem atravessar, quer colher sem sustentar o cultivo. Só que a vida não funciona assim. O corpo não funciona assim. A psique, menos ainda.
Quando alguém decide mudar o corpo, entrar na musculação, começar uma prática corporal, cuidar da saúde ou da força, o objetivo costuma ser claro. Ficar mais forte. Ter mais vitalidade. Sentir-se melhor. O desejo parece é simples, , mas o caminho é que é sofisticado.
No começo, tudo parece entusiasmo. Mas entusiasmo não sustenta nada por muito tempo. Vontade oscila. Vontade some. Por isso, eu não confio em processos guiados só por vontade. Vontade passa. O que fica é o compromisso com aquilo que realmente importa.
Qualquer transformação real exige etapas. Adaptação, repetição, pausa, ajuste. Existem fases em que o corpo responde rápido e fases em que ele parece não responder. E aí mora um erro comum... confundir silêncio com fracasso.
Nem toda fase entrega sinais visíveis. Às vezes, o resultado é tão sutil que a mente interpreta como estagnação. Em certos momentos, dependendo de como estamos emocionalmente, essa fase pode ser vivida como regressão. Como se nada estivesse funcionando. Mas o corpo continua trabalhando. Em profundidade, onde o imediatismo não alcança.
Quando existe um plano bem feito, com atenção e entrega, a gente atravessa essas fases sem perder o eixo. Mesmo sem aplauso. Mesmo sem confirmação externa. O objetivo continua ali, sustentando o caminho.
Eu vejo isso no corpo, mas também na minha vida emocional, nas escolhas profissionais que já fiz e nas relações que precisei sustentar ou encerrar. Existem períodos em que não há clareza nenhuma, só repetição, cansaço e dúvida. E hoje eu sei: isso não é falta de avanço. É maturação.
Por isso, uma pergunta simples organiza muita coisa: isso me aproxima ou me afasta do que eu desejo?
Essa pergunta serve para tudo. Para escolhas grandes e pequenas. Para hábitos, comportamentos, reações. Isso me aproxima da pessoa que eu quero ser? Da vida que eu quero sustentar? Ou me afasta?
Nem toda vontade merece ser seguida. Muitas vontades são apenas impulsos antigos pedindo alívio rápido. Quando a gente aprende a permanecer presente no que precisa ser feito, lida melhor com essas vontades e com as impressões do caminho. Sem se perder nelas.
Hoje cedo li uma frase do Contardo Calligaris que diz muito sobre isso: "a vida adulta é sempre menos adulta do que parece. Ela é pilotada por restos e rastros da infância".
Essa frase desmonta uma fantasia comum. A de que crescer resolve tudo. Não resolve! A gente cresce, trabalha, decide, assume responsabilidades, mas continua sendo conduzido por registros muito antigos. Modos de reagir, de se proteger, de buscar validação, de evitar abandono.
Grande parte do que chamamos de escolha adulta é, na verdade, tentativa de reparação infantil. A vida adulta acontece nesse tom. Um corpo adulto, uma rotina adulta, mas uma psique atravessada por histórias que começaram cedo demais.
Quando não reconhecemos isso, confundimos vontade com direção. Reagimos mais do que escolhemos. Abandonamos processos porque uma parte nossa não aguenta atravessar o meio do caminho. O famoso "deserto".
Para mim, maturidade nunca foi eliminar essas partes. Sempre foi aprender a conduzi-las. Não com força, mas com presença. Com a responsabilidade de quem já entendeu que reagir menos é escolher melhor.
Eu aprendi isso muito no corpo. No treino, não adianta brigar quando ele não responde como a mente gostaria. O corpo não obedece ansiedade. Ele responde a constância.
Sustentar o processo, ajustar o plano, continuar mesmo quando nada parece acontecer. A força que realmente importa não é a que aparece rápido. É a que fica.
No fim, construir algo, no corpo ou na vida, tem sido isso para mim: respeitar o tempo das coisas sem perder de vista quem eu estou me tornando no caminho.
E por onde eu passo, deixo sempre a mesma mensagem.,. "A única possibilidade de experimentar a vida na Terra é pelo corpo". Não existe consciência fora dele. Não existe amadurecimento sem atravessamento corporal. Tudo passa pelo corpo antes de ganhar nome, ideia ou narrativa.
O corpo é o primeiro território da experiência. É nele que a vida acontece antes de ser explicada. É ele que registra o tempo, os afetos, as perdas, os excessos e as ausências. Quando a gente tenta viver só da cabeça, a experiência empobrece. Quando volta para o corpo, a vida volta a ter chão.
Talvez maturidade seja isso também. Parar de tentar entender a vida de fora e começar a habitá-la por dentro. Porque é só no corpo que a vida deixa de ser conceito e passa a ser vivida.
Com amor,
Fernanda.




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