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O lugar instável onde tudo começa

A constância costuma ser romantizada como um lugar seguro, mas, olhando mais de perto, ela talvez seja o estado mais instável de todos. Não porque falte chão, mas porque ela antecede as grandes mudanças. Pra mim, ela é um território silencioso, onde nada parece acontecer de forma evidente, mas tudo já está em movimento por dentro.


Quando a vida parece calma demais ou até estagnada, muitas vezes o que sentimos não é paz, é a tensão de algo que ainda não chegou…uma espécie de turbulência invisível que assusta justamente por não ter forma, nome ou data.


Esse intervalo provoca inquietação. A mente quer respostas, o corpo quer sinais claros, e o coração oscila entre a vontade de avançar e o medo do desconhecido. A constância carrega essa ambiguidade: por fora, repetição; por dentro, gestação. É quando nada muda externamente que as perguntas mais profundas começam a ganhar força.


O desconforto nasce porque ainda não vemos o próximo passo, apenas sentimos que o chão conhecido já não satisfaz como antes… e, quando ampliamos o olhar, algo se reorganiza. Mesmo diante da vertigem dos horizontes, começamos a perceber que existe um fluxo maior em andamento. A vida não está parada; ela está criando condições. Como o vento contrário que, à primeira vista, parece obstáculo, mas é justamente o que possibilita o voo. Essa força ascendente não vem da pressa, vem da escuta, vem da confiança no processo.


É nesse ponto que a constância revela sua verdadeira natureza. Pra mim, ela não é ausência de movimento, mas estabilidade suficiente para sustentar a transformação. Um lugar onde a alma encontra apoio enquanto a consciência se expande. Permanecer ali exige coragem, porque não há garantias, apenas pressentimentos.


Ainda assim, é nesse espaço que algo novo começa a ganhar contorno, mesmo que ainda não possa ser nomeado.


O ano novo se apresenta como essa pista de decolagem simbólica. Não como promessa imediata de mudança, mas como convite à contemplação da potência do que ainda não é. Um tempo de reconhecer o que está sendo preparado no silêncio, de confiar no vento que sopra contra e, ainda assim, sustenta. Porque o voo só acontece quando aprendemos a habitar a instabilidade do impulso… e talvez seja exatamente aí que mora a forma mais profunda de estabilidade que podemos acessar.


Com amor,

Fernanda.

 
 
 

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