Palavras que nascem do corpo
- Fernanda Mendes
- 21 de jan.
- 4 min de leitura
Só há diálogo quando a escuta é honesta.
Pode parecer uma afirmação simples, mas ela carrega um desafio profundo para o nosso tempo. Escutar de forma honesta não é apenas ouvir as palavras do outro. É permitir que elas nos atravessem sem que, imediatamente, precisemos reagir, nos defender ou nos posicionar. É criar um espaço interno onde a fala do outro possa existir sem ser combatida. (só me dei conta disso quando conheci o poema Escutatória, de Rubens Alves).
Quando as palavras não nascem da reação, elas ganham outra qualidade.
Elas deixam de ser armas ou escudos e passam a ser veículos. Veículos de presença, de reconhecimento, de cuidado. Palavras que não reagem podem, inclusive, abraçar. Elas têm esse poder quando brotam de um lugar mais consciente e menos automático.
Viktor Frankl, psiquiatra e pensador austríaco, dizia que entre o estímulo e a resposta existe um espaço. Um espaço vivo, onde mora a possibilidade de escolha. Esse espaço não é abstrato. Ele acontece no corpo.
A comunicação não começa na boca. Ela começa no corpo.
Começa na nossa capacidade de perceber o que acontece dentro de nós quando somos atravessados pela fala do outro. Uma contração, um calor, um aperto no peito, um pensamento que acelera. É ali que o diálogo verdadeiro pode nascer ou se perder. Porque, se não percebemos o que se move em nós, quem responde não é a consciência, é o reflexo.
Na tradição do yoga, comunicação está diretamente ligada à presença. Antes da palavra, existe a escuta. Antes da resposta, existe o silêncio. Não como ausência de som, mas como espaço interno disponível. O yoga nos ensina que toda ação consciente nasce de um alinhamento entre corpo, respiração e atenção. A fala não é diferente.
Por isso, muitas pessoas sentem que precisam de tempo para responder, para conversar, para elaborar. Esse tempo, quando vivido com presença, é maturação. Mas quando esse silêncio é tomado por ruminação, justificativas internas e diálogos imaginários, ele se torna barulhento. E um silêncio barulhento gera ainda mais ruído na comunicação.
Há algo ético que pode sustentar esse intervalo... nomear. agradecer, reconhecer, dizer ao outro algo como: eu recebo o que você disse, agradeço a abertura, a entrega, a energia colocada nessas palavras. Preciso de um tempo para acolher tudo isso. Essa atitude, por si só, já é comunicação. Ela mantém o vínculo vivo enquanto o conteúdo se acomoda dentro desse espaço.
Vivemos em uma cultura que valoriza mais respostas do que perguntas. A rapidez virou sinônimo de inteligência, e o silêncio, muitas vezes, é visto como falha. Mas escutar exige treino. Como uma musculação. Um exercício contínuo de presença, atenção e disponibilidade.
No yoga, aprendemos que o corpo precisa de tempo para integrar um movimento, que o sistema nervoso precisa de espaço para se reorganizar, que a respiração guia os estados internos. A comunicação segue a mesma lógica. Forçar uma resposta antes da integração costuma gerar desalinhamento.
Ao longo da vida inteira, vamos nos relacionar com esse veículo invisível e potentíssimo que são as palavras. Para além do corpo, existe essa ponte entre nós e o mundo, entre nós e o outro, entre o que sentimos e o que pode ser compartilhado.
Comunicar-se não é um evento pontual. É um processo contínuo que nos acompanha em todas as fases da vida, em todas as relações.
Hoje, muitos estudos já apontam que grande parte do nosso funcionamento acontece no nível do subconsciente. Ele está ativo o tempo todo, processando informações, memórias, experiências passadas, ameaças percebidas. Quando, em uma conversa, não há espaço interno, quando não há pausa, presença ou escuta real, é o subconsciente que assume o comando.
É nesses momentos que surgem os gatilhos internos. Palavras ditas em modo de defesa ou ataque, respostas automáticas, tons que endurecem, discursos que ferem. Não porque somos maus ou imaturos, mas porque algo foi ativado antes que a consciência pudesse chegar. O corpo entra em alerta, o sistema nervoso reage, e a comunicação deixa de ser ponte para se tornar muro.
A origem desses gatilhos quase nunca está no agora. Ela está em experiências anteriores, em memórias emocionais, em situações onde não houve espaço, escuta ou segurança. Quando o presente toca essas camadas não integradas, o corpo reage como se estivesse vivendo tudo de novo. E a palavra, que poderia ser encontro, vira descarga.
Por isso, voltar ao corpo é essencial. Criar espaço interno é um gesto de responsabilidade afetiva, é reconhecer que, sem esse espaço, não escolhemos as palavras. Somos escolhidos por elas.
Talvez por isso a ideia de jejum também possa ser aplicada à comunicação. Um bom jejum de palavras, feito com consciência, quase sempre cai bem. Jejuar respostas impulsivas, explicações excessivas, defesas automáticas. Esse tipo de silêncio não empobrece a relação, ao contrário, desintoxica. Assim como o corpo se beneficia quando pausamos excessos, a comunicação também se torna mais limpa quando escolhemos falar menos e escutar mais.
Talvez um dos grandes desafios da humanidade hoje seja justamente esse: aprender a se relacionar conscientemente com esse veículo que nos atravessa todos os dias.
Reaprender a comunicar sem violência interna. Reconhecer que escutar é uma ação, e que a abertura e o silêncio confortável, pode ser um gesto de cuidado... nesse espaço entre o estímulo e a resposta, não escolhemos apenas o que dizer. Escolhemos a qualidade da presença que levamos para as relações.
Sigo treinando ❤️
Com amor,
Fernanda.




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