Quando o terapeuta vira personagem
- Fernanda Mendes
- há 8 horas
- 2 min de leitura
Quem é a pessoa que você está autorizando a tocar sua história?
Existe algo muito delicado no nicho terapêutico. Ele lida com dor, com trauma, com esperança, com fé. Lida com pessoas que muitas vezes chegam esgotadas, atravessadas por perdas, confusas emocionalmente, buscando amparo. E é justamente por isso que esse espaço exige ética profunda, maturidade e verdade de quem o ocupa.
O que tenho observado com é a quantidade de pessoas que se camuflam nesse nicho para sustentarem suas próprias imoralidades. Vestem o personagem de terapeuta, aprendem um vocabulário técnico, constroem uma estética espiritualizada e utilizam esse lugar de autoridade para acessar a vulnerabilidade alheia. Isso é grave. Porque quando alguém entra em um consultório, não está apenas contratando um serviço, está confiando... entregando suas camadas mais finas e sensíveis.
No início da minha jornada, uma senhora me fez uma pergunta que nunca esqueci. Ela queria saber se, para receber "reiki", precisava ficar nua. Disse que no atendimento anterior o terapeuta solicitava que ela retirasse toda a roupa e a cobria com um lençol fino. Perceba o nível de distorção. Perceba o quanto alguém pode ser conduzido a naturalizar situações inadequadas quando está fragilizado e acredita estar diante de um profissional sério.
Isso não é sobre uma técnica específica. É sobre caráter... é sobre a vida que sustenta o discurso. Não falo aqui da soma de títulos, certificados e formações. Isso é importante, sim. Mas não é o essencial. O essencial é a bagagem de vida. É a prática coerente e a forma como esse profissional se posiciona no mundo, como lida com limites, como respeita o outro, como honra o espaço terapêutico.
O nicho terapêutico não pode ser palco para jogos de poder, manipulação emocional ou exploração da fragilidade humana. A relação terapêutica é assimétrica por natureza. O profissional detém conhecimento técnico, linguagem e condução do processo. Por isso mesmo, a responsabilidade ética é maior.
Se você está buscando uma experiência terapêutica, pesquise. Informe-se. Observe a trajetória dessa pessoa. Converse com quem já foi atendido, perceba se existe coerência entre o que ela fala e como vive. Não se encante apenas com a estética, com o marketing ou com promessas de transformação rápida.
A transformação verdadeira é profunda, gradual e respeitosa.
Confiança não pode ser usada como moeda de troca. Espiritualidade não pode ser máscara. Terapia não pode ser território de abuso.
Quando alguém atravessa a porta de um consultório, está oferecendo algo muito precioso. E quem escolhe ocupar esse lugar precisa compreender que está lidando com a dignidade humana.
Que a gente tenha coragem de falar sobre isso. E que cada pessoa que busca cuidado saiba que tem o direito de perguntar, de desconfiar, de dizer não. A ética não é opcional. É o chão de qualquer prática que se proponha a cuidar.
Com amor,
Fernanda.
