Quando o vício revela um corpo não habitado
- Fernanda Mendes
- 19 de jan.
- 3 min de leitura
Desde o final de 2024, desenvolvo um trabalho contínuo em um espaço de reabilitação para mulheres com dependência química em Florianópolis. Essa experiência ampliou de forma decisiva meu repertório profissional, humano e espiritual, atravessando também a maneira como compreendo e aplico o yoga em contextos onde o corpo, muitas vezes, foi abandonado ou violentado pela própria tentativa de sobreviver.
É um trabalho que acontece no off, mas que sustenta silenciosamente tudo o que faço.
Foi nesse campo que aprofundei o contato com a obra de Marion Woodman, especialmente a partir de entrevistas e reflexões ligadas a Feminilidade Consciente. Esse material ofereceu linguagem e estrutura para compreender algo que já se apresentava na prática corporal com essas mulheres, mas que ainda não estava claramente organizado.
Woodman amplia o entendimento de vício. Sua abordagem não se restringe às drogas ou ao álcool, mas inclui toda forma de compulsão que surge como tentativa de não estar plenamente na própria experiência. Comida, controle, anestesias emocionais, excesso de espiritualização. O vício aparece, então, não apenas como aquilo que destrói de forma evidente, mas como tudo o que afasta o sujeito de si mesmo.
Uma imagem central em sua obra é a do corpo como uma metáfora elaborada. Um corpo que, muitas vezes, consegue saborear a vida, mas não consegue engolir. Não consegue assimilar. Algo se interrompe entre sentir e sustentar. Em quadros como a anorexia isso se manifesta de forma explícita, mas essa dinâmica também se apresenta de maneiras mais silenciosas e igualmente profundas.
Uma pergunta trazida por Woodman atravessa diretamente esse trabalho:
o que acontece quando não usamos completamente o corpo?
A resposta é clara. Há uma desconexão da alma e do propósito da vida. A vida é, essencialmente, uma experiência de encarnação. A alma precisa ser vivida dentro de um corpo humano. O impasse da cultura contemporânea está na tentativa recorrente de saltar essa etapa, buscando o plano do espírito sem atravessar a densidade do corpo.
Essa superespiritualização não é neutra. Quando o corpo não é vivido, ele reage. O grito pode surgir na forma de sintomas, colapsos ou vícios. O vício passa a funcionar como uma tentativa distorcida de retorno à terra, um chamado do corpo para ser habitado.
Woodman também compreende o vício como um movimento de evitação e substituição. Evitação da guerra interna e da realidade, frequentemente percebida como dolorosa demais para ser sustentada. Na base dessa dinâmica existe uma ferida profunda: a sensação de não ser amada (o) se for quem se é. A expectativa constante de rejeição. Uma dor psíquica difícil de permanecer.
O vício substitui uma realidade mais profunda. Cria um outro nível de experiência, artificial, porém mais tolerável do que estar inteiro no próprio corpo, na própria história e nos próprios limites.
É nesse ponto que o yoga, quando compreendido em sua função essencial, se apresenta como uma ponte. Não como fuga, idealização ou estética, mas como ferramenta de retorno... retorno à sensação, à respiração, ao ritmo interno, ao limite e à presença.
O experiência que realizado com essas mulheres não se organiza em torno de desempenho ou formas ou posturas perfeitas. Ele se estrutura na possibilidade de reaprender a habitar o corpo. Sustentar a experiência sem se destruir. Criar condições internas para permanecer onde, antes, só era possível fugir.
Seguir nesse campo reafirma um princípio que sustenta toda essa prática: o corpo não é um obstáculo para a espiritualidade. Ele é o caminho. Quando o corpo é incluído, o vício começa, gradualmente, a perder sua função.
Não porque a dor desaparece, mas porque ela encontra um lugar onde pode ser sentida, integrada e transformada.
No fim, tudo retorna a uma pergunta fundamental:
como estamos vivendo o corpo que temos?
Com amor,
Fernanda.




Bom dia!! Como sempre, um texto leve e saboroso que leva a reflexão e percepção de nós mesmos. Muito obrigado por compartilhar!!🤗🤗🤗