Travessia exige presença
- Fernanda Mendes
- 2 de jan.
- 2 min de leitura
O ano novo não pede esperança ingênua, pede lucidez. Existe um ponto silencioso em que a vida deixa de ser algo que acontece conosco e passa a ser algo que respondemos... o lugar onde paramos de perguntar por que isso aconteceu comigo e começamos a perguntar o que isso revela sobre a forma como tenho escolhido viver.
O início de um novo ciclo não é sobre virar a página, mas sobre ler com atenção o que foi escrito até aqui e reconhecer a nossa participação em cada linha.
Continuar exige responsabilidade. Não se trata de manter tudo o que é confortável, mas de sustentar o que é coerente. Há escolhas que repetimos por lealdade ao passado, não por verdade presente, e quando seguimos fazendo o que já não faz sentido, não estamos sendo fiéis, estamos apenas evitando o desconforto da mudança. Continuar, na perspectiva da maturidade, é assumir que aquilo que permanece precisa ser cuidado, revisitado e atualizado. Se algo continua, é porque estamos dispostas a responder por isso, não a nos esconder atrás do hábito.
Começar exige coragem emocional. Não aquela coragem performática de quem quer provar algo ao mundo, mas a coragem íntima de quem sabe que não pode mais viver no modo automático. Durante minhas práticas pessoais, mesmo dentro do yoga, tenho percebido algo com cada vez mais clareza... Padrões não se quebram com desejo. O desejo até aponta uma direção, mas é a ação consciente que atravessa o hábito. O corpo revela isso sem rodeios. Posso respirar, alongar, silenciar, mas se sigo escolhendo do mesmo lugar interno, nada muda de fato. A prática vai virando conforto, não transformação. Quando a ação nasce da presença, e não da esperança de que algo mude sozinho, o padrão começa a perder força. Então, pra mim, começar algo novo implica abandonar a fantasia de que desta vez será diferente sem que eu precise ser diferente.
Todo começo verdadeiro carrega a responsabilidade de sustentar escolhas difíceis, de dizer não onde antes se dizia sim por medo, de permanecer onde antes se fugia. Deixar no ano que passou é um gesto de autoria profunda. É reconhecer que certas dores se mantêm porque seguimos escolhendo as mesmas estratégias para lidar com elas. Há vínculos que adoecem não por falta de amor, mas por excesso de expectativa. Há comportamentos que se repetem não por azar, mas por falta de presença. Deixar ir, nesse sentido, não é abandonar, é encerrar ciclos que já cumpriram sua função pedagógica.
O ano novo se torna fértil quando assumimos que não existe transformação sem responsabilidade afetiva consigo mesmo. Não adianta desejar relações mais saudáveis sem rever o próprio posicionamento. Não adianta pedir leveza sem abrir mão do controle.
A vida responde à forma como nos colocamos nela. Escolher, sob essa ótica, é parar de negociar com o que nos afasta de nós mesmos. Talvez a escolha mais radical para o próximo ano seja essa: sair do papel de personagem e ocupar o lugar de autor. Não para controlar o enredo, mas para responder por ele. A vida não pede perfeição, pede presença. ... e presença, quando é verdadeira, reorganiza tudo.
Com amor,
Fernanda.




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